
Motorista do ônibus teria furado o sinal vermelho em acidente fatal. (Foto: Pietra Dorneles, Midiamax)
Motoristas do transporte coletivo de Campo Grande denunciam condições de trabalho consideradas exaustivas após o acidente que matou a motociclista Gabriele Pinzan Mendes, de 33 anos, na manhã de sexta-feira (27), no cruzamento das ruas Brilhante e Argemiro Fialho, na Vila Bandeirantes.
A tragédia pode resultar em responsabilização do condutor por homicídio culposo, conforme o Código de Trânsito Brasileiro, mas, por outro lado, reacendeu o questionamento sobre a rotina enfrentada pelos profissionais que operam os ônibus na Capital.
Segundo relatos, o motorista envolvido no acidente teria encerrado a jornada por volta de 1h da madrugada e retornado ao volante às 4h40 do mesmo dia, intervalo inferior a três horas de descanso. As denúncias foram encaminhadas pelo grupo Ligados no Transporte, que afirma ter acesso a documentos internos e relatos diretos de trabalhadores.
De acordo com as denúncias, a falta de motoristas tem levado o Consórcio Guaicurus, responsável pelo transporte público em Campo Grande, a pressionar trabalhadores a assumir as chamadas ‘dobras’ de turno. Na prática, isso significa estender a jornada para além do previsto, com casos que ultrapassam 14 horas de trabalho em um único dia.
Uma planilha interna de escala, obtida por denunciantes, indicaria a sobrecarga. Há registros de motoristas com jornadas como 14h04, 13h58 e outras superiores a 10 horas contínuas. O documento também aponta linhas sem condutor vinculado, o que pode resultar em viagens canceladas ou na necessidade de que outros profissionais assumam o serviço de última hora.
Os relatos mencionam, ainda, desrespeito a intervalos intrajornada previstos na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), além de impactos diretos na segurança. A privação de sono e o cansaço extremo, segundo os denunciantes, comprometem a atenção ao volante e aumentam o risco de acidentes.
Outro ponto citado é a dificuldade do consórcio em manter trabalhadores. Motoristas venezuelanos, recrutados para suprir a demanda da falta de motoristas, estariam deixando a empresa em busca de melhores salários e condições em companhias de fretamento que atuam na cidade. A evasão agravaria ainda mais o déficit de profissionais e, consequentemente, a sobrecarga dos que permanecem.
A reportagem do Jornal Midiamax entrou em contato com o Consórcio Guaicurus para questionar sobre as denúncias apresentadas. Até o momento desta publicação, não houve retorno. O espaço segue aberto para posicionamentos.
CPI do Consórcio Guaicurus
O Consórcio Guaicurus acumula críticas recentes relacionadas à qualidade do serviço, valor da tarifa, estado de conservação dos veículos e condições de trabalho dos motoristas. Toda a situação do transporte público em Campo Grande resultou na criação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) na Câmara de Vereadores.
A CPI concluiu seus trabalhos em setembro de 2025, apontando sucateamento da frota, falhas na fiscalização e má gestão financeira pelo consórcio. A CPI recomendou o indiciamento de diretores do consórcio e cobrou medidas drásticas da Prefeitura.
Seu relatório final foi aprovado por unanimidade e apontou omissão na fiscalização pela Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito) e que o consórcio tinha recursos, mas não investiu na renovação da frota, operando com ônibus velhos.
A CPI pediu o indiciamento de diretores do Consórcio Guaicurus e ex-gestores municipais relacionados à falta de fiscalização e precarização do serviço. O relatório cobrou a substituição da frota com a troca de 198 ônibus que ultrapassaram a idade máxima e sugeriu que o poder público assuma o controle (intervenção) diante da falha na prestação do serviço.
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