Família de casal morto a tiros comemora prisão de vizinho

Suspeito chegando à Depac-Cepol. (Foto: Pietra Dorneles, Midiamax)

Familiares de Nathalia dos Anjos Molina e de Ademar Spacino Júnior comemoraram a prisão de Deivison Felipe Alves de Brito na manhã desta terça-feira (21). O suspeito, de 30 anos, chegou a ser preso em flagrante após o duplo homicídio, mas ganhou liberdade durante a audiência de custódia no dia 6 de junho.

Para a tia de Nathalia, a prisão de Deivison representa, de certa forma, justiça. “Hoje nós estamos felizes, porque a pessoa mata, dá tiro nas costas e acha que no mesmo dia vai estar solta? Que lei é essa que nós temos? Mas aí, nós tivemos que procurar advogado para procurar a Justiça e conseguimos; hoje estamos felizes”, disse Irene Vieira dos Anjos, de 63 anos.

“Nós queremos justiça, é o que mais queremos. Chegar e dar três tiros nas costas dele e matar o outro dentro de casa. E no mesmo dia estar liberto. Não existe isso daí”, argumentou a idosa.

O advogado Wilian Frata, que atua como assistente de acusação, afirma que a mãe de Nathalia também recebeu a notícia da prisão de forma positiva, com sensação de justiça.

“Quando ela [mãe da Natália] ficou sabendo que o juiz Garcete deu a decisão da prisão, para ela, é a sensação de que a Justiça existe e ela pode dormir mais tranquila”, contou.

A tese de que o suspeito tenha agido em legítima defesa, para o assistente de acusação, é inválida. “A defesa do acusado alegou legítima defesa. Contudo, por serem dois [tiros] no peito de Ademar e três tiros nas costas da vítima Nathalia, conseguimos comprovar tecnicamente que não poderia ser legítima defesa”, disse o assistente.

Segundo o advogado, um histórico de desavenças entre as vítimas e o suspeito já existia. “Eles eram vizinhos e moravam no mesmo terreno. Eles alegam que já existiam várias rixas dentro do próprio terreno e brigas de vizinhos. Contudo, hoje nós não podemos descartar que realmente existia até uma questão de própria homofobia, pela vítima, que é a Natália, ser uma mulher trans e morrer da forma brutal que morreu”, disse.

Suspeito sendo conduzido para a Cepol. (Foto: Pietra Dorneles, Midiamax)

Pedido de prisão

Após a liberdade de Deivison em audiência de custódia, o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) pediu a prisão preventiva de Deivison, mas a Justiça negou.

A assistência de acusação, por meio do advogado Willian Frata, alegou que os vestígios materiais colhidos fragilizam a tese de legítima defesa e demonstram a necessidade da prisão preventiva. Já a defesa alegou que inexistem riscos concretos decorrentes da liberdade, que a legítima defesa é plausível e que as medidas já impostas são suficientes.

Assim, a 2ª Vara do Tribunal do Júri verificou que estão presentes os requisitos da prisão preventiva e decretou a prisão de Deivison na última sexta-feira (17).

“A prova da materialidade dos delitos encontra-se demonstrada, a princípio, pelo boletim de ocorrência, pelos depoimentos e pelo auto de apreensão, documentos dos quais também emergem indícios suficientes de autoria. De igual modo, está evidenciado o perigo concreto decorrente do estado de liberdade do investigado”, explicou o juiz de Direito Aluizio Pereira dos Santos.

Dias após o assassinato do casal, o Jornal Midiamax noticiou que a mãe de uma das vítimas atuaria no caso como assistente de acusação.

“Eu perdi minha filha. Ela estava dentro de casa, se preparando para trabalhar, quando entraram para matá-la. Quero que ele fique na cadeia pelo resto da vida”, declarou Helena da Silva dos Anjos.

Casa onde ocorreu o crime. (Pietra Dorneles, Arquivo Midiamax)

Duplo homicídio

O crime aconteceu na manhã de 5 de junho, no bairro Taquarussu, em Campo Grande. O casal morava nos fundos da residência do autor, que foi preso horas depois pelo GOI (Grupo de Operações e Investigações).

À polícia, a esposa do atirador afirmou que ele tinha desavença anterior com o casal de vizinhos e que vinha sofrendo ameaças e perturbações por parte de um dos envolvidos.

Ainda conforme a mulher, por volta das 5h45, ela estava saindo para trabalhar quando foi abordada por um dos envolvidos, que foi até sua residência e tentou agredi-la. Ao perceber a situação, seu marido saiu em sua defesa e, nisso, fez diversos disparos contra uma das vítimas.

Na sequência, o autor foi até o interior da casa onde se encontrava a outra vítima e efetuou novos disparos. Os dois morreram no local.

Já a mãe de Nathalia afirma que o duplo assassinato foi motivado por ódio à identidade de gênero da vítima. Ela relatou que há meses insistia para que a filha deixasse a residência devido às constantes ameaças e brigas com os vizinhos.

O caminhão de mudança chegou ao imóvel justamente no dia 5, horas após o crime.

Local do crime. (Pietra Dorneles, Midiamax)

Midiamax

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